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Banco médio amplia captação no varejo

A base de captação de recursos de uma série de bancos de menor porte e de financeiras passou por uma transformação nos últimos dois anos. Antes concentrado em grandes investidores institucionais, o funding dessas instituições passou a contar com uma participação relevante - e crescente - do público de varejo.

O crescimento acontece apesar do agravamento da crise política e econômica neste ano e das dificuldades enfrentadas por algumas instituições de médio porte com avanço dos calotes corporativos.

Em bancos como Pine e Indusval, esse crescimento foi expressivo. No Pine, os investidores pessoa física representam, em julho, 52% da base de depósitos a prazo e de letras de crédito imobiliário (LCI) e do agronegócio (LCA). Em julho do ano passado, essa fatia era de 23% e, em 2013, 7%. No Indusval, essa participação seguiu crescimento semelhante e hoje responde por cerca de 52% da base do banco, considerando também papéis distribuídos por corretoras e distribuidoras. Em outras instituições, como Sofisa, ABC Brasil e Daycoval, a captação de varejo também tem avançado.

Conseguir ampliar a base de investidores no varejo é um desejo antigo de instituições de menor porte. O movimento, porém, só começou a tomar corpo quando, em 2013, houve o aumento da cobertura que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) paga por CPF em caso de problemas na instituição financeira. O volume garantido subiu de R$ 70 mil para R$ 250 mil. Com o novo limite, uma única pessoa pode contar com até R$ 2,5 milhões, divididos igualmente em dez instituições diferentes, assegurados pelo fundo. As taxas atraentes também ajudaram a atrair esse investidor. Os papéis são ofertados a rendimentos próximos de 120% do CDI, acima da média de aplicações em renda fixa.

Sem contar com redes de agências como os grandes bancos, as instituições de médio porte se valeram das corretoras para ampliar a captação entre o público de varejo. Com o fraco desempenho da bolsa e a alta da taxa Selic, os papéis de bancos, tanto os produtos isentos de imposto de renda, como LCI e LCA, como os tradicionais certificados de depósito bancário (CDB), viraram um dos destaques na prateleira de produtos financeiros oferecidos pelas corretoras e mesmo pelas áreas de private banking dos grandes bancos.

"Acredito que a continuidade desse movimento vai depender da capacidade de os bancos continuarem gerando lastro para as letras", diz Alexandre Sinzato, superintendente de relações com investidores do ABC Brasil. Segundo ele, a instituição conseguiu atrair um "bom volume" de aplicações para além do teto garantido pelo FGC, graças à qualidade de seus ativos. Cerca de 37% da base de depósitos a prazo e letras do banco está em pessoas físicas em junho de 2015, ante 29% há dois anos.

O presidente da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), Manoel Felix Cintra Neto, diz que a ampliação do varejo dá estabilidade à captação dos bancos menores. "O investidor institucional é mais instável e mais suscetível à conjuntura, por isso acabam mudando de ativos com mais frequência", diz. "Como a pessoa física não conhece as instituições menores, a garantia do FGC deu tranquilidade para o pequeno investidor comprar."

A emissão direta conta ainda com a vantagem de ser mais ágil e flexível, diz Nelson Rosa, diretor da Omni. A financeira, que com frequência acessa o mercado de capitais com a cessão de carteiras para fundos de recebíveis (Fidc), ampliou a emissão de letras de câmbio para o público de varejo. "Um fundo leva tempo e custa caro para ser estruturado. Com a letra de câmbio, eu capto o quanto preciso e de forma mais rápida", diz.

O rendimento dos papéis e a garantia do FGC têm atraído investidores de aplicações como a caderneta de poupança, que perdeu competitividade com a alta dos juros, segundo Bruno Saads, responsável pela área de renda fixa da XP Investimentos. Com produtos de 55 instituições na prateleira, a corretora conta com estoque de quase R$ 7 bilhões em títulos bancários distribuídos entre seus clientes.

"A corretora negocia as taxas como um cliente institucional, com a vantagem de não ser um funding concentrado", diz. Nem o agravamento da crise econômica e política arrefeceu até o momento a demanda dos investidores. Os papéis de bancos e financeiras responderam por 50% da captação líquida da XP nos últimos 30 dias, afirma.

Apesar do benefício para as instituições, o forte crescimento dos títulos de bancos pequenos e médios na carteira do público de varejo é visto com reservas por parte do mercado. "Minha dúvida é saber se os investidores sabem o que estão comprando", afirma um banqueiro cuja instituição possui exposição pequena a depósitos de pessoas físicas.

Fonte: Valor Econômico

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